Quando temos tempo pensamos numa série de coisas que queremos fazer. Projectos. Sonhos. Tentações. Frustrações.
Quando temos tempo pensamos naquilo que queríamos ser, e que achamos que não somos porque não temos tempo. E temos toda a força do mundo para começar, traçar um plano e repensar na vida. O que vou fazer? O que quero fazer? Para onde vou? Para onde quero ir? Como posso lá chegar?
Esta sensação de hotel é ao mesmo tempo apaziguadora e solitária. Por um lado estamos sozinhos, e é bom. Temos tempo de fazer nada e pouco, é um relax total. Por outro lado, não há interacção (isto se viermos sós obviamente). A nossa companhia somos nós próprios, e é bom para voltarmos a gostar de nós e apreciarmo-nos.
Estou na Alemanha. Aqui sinto-me diferente, latina sem dúvida. Daqui a umas horas sigo viagem. Ontem não queria, hoje estou ansiosa. É sempre assim, quando estou no meu mundo, na minha casa, quero ficar ali, sinto-me confortável. Quando chego “aqui”, também me sinto em casa, gosto de olhar para as pessoas, gosto de ver tudo o que me rodeia, gosto de ver movimentação, vê-las a ir para a algum lado, será casa, trabalho, problemas, ferias? Tanta gente a movimentar-se, tantas nacionalidades, culturas.
Enquanto bebia um cappuccino ao pé da janela, mesmo em cima de um lado da pista, reparei que estavam ao pé de um avião a tripulação de cockpit, que percebi que esperava pelo crew bus. Enquanto este não chegava, de vez em quando 2 tripulantes de cabine apareciam fora do avião e gritavam algo aos pilotos que se riam. O barulho devia ser tal que um dos tripulantes entrou no avião para pouco depois aparecer com um megafone encarnado e gritou algo que fez com que os tripulantes dessem uma gargalhada que ate eu que estava aqui dentro pude perceber, o que me fez sorrir.
Como posso esquecer os cadernos, as inúmeras folhas de papel, as imensas linhas que escrevia nas minhas viagens, com tudo o que me vinha à cabeça. Fiquei anos sem escrever. Sempre achei que nunca iria parar de escrever , achava que era algo que estava dentro de mim, e que ia ter a ver com o meu futuro; mas entretanto essa paixão de extravazar os meus sentimentos e pensamentos adormeceu em mim, e ganhei fobia à escrita; fazia-me sentir sozinha, e entretanto nunca deixei que esse futuro chegasse; realizo agora que talvez seja isso que me faça falta, poderá até ajudar-me na minha missão pessoal de querer soltar-me, descobrir-me e aceitar-me. É certo que nesta organizaçao onde estou hoje, tudo o que tenho vindo a experienciar, a ouvir e a ver, tem sido a principal base da minha aprendizagem de vida, pois nunca me tinha deparado com tanta variedade de pessoas, umas boas, outras menos boas. Tive alegrias, mas também desgostos, e continuo com a duvida se estarei a interpretar bem as coisas, e se as pessoas que acho de bom fundo, se verdadeiramente o possuem, ou se me atiram areia para os olhos para eu não me dar conta que esse fundo simplesmente não está lá. Eu própria já pus em questão o meu fundo.
Começa a ser um vicio. Escrever é libertador e ajuda-me a decifrar aquilo que sou e ainda não conheço. Percebo também que estar fora do meu ambiente e do meu contexto aumenta o volume de pensamentos e conclusões que pairam aqui na minha cabeça. Gostava de só fazer isto, viajar, andar pelos aeroportos do mundo e escrever. Hoje vi uma família “feliz”, 1 casal com 2 filhas, os pais sempre a ralhar com as filhas que não estão quietas. A mulher olhava para mim e eu adivinhava o que lhe ia no pensamento: “quem me dera ser ela, estar ali calma, a ler a sua revista, sem ninguém a puxar-lhe a camisola ou sem ter que gritar meninas chega!”. E eu olhava para ela mas ela não conseguia adivinhar os meus pensamentos, algo tão simples como “quem me dera ser mãe, mulher, esposa”. Mas rapidamente esses pensamentos desvanecem quando volto para a minha revista, e começo a dobrar as paginas com tudo o que quero ver, experimentar, fazer, acontecer!

Sem comentários:
Enviar um comentário